sexta-feira, março 19, 2010

Mosquito 'seringa' pica e injeta vacina

Cientistas japoneses criaram uma linhagem transgênica que inocula pequenas doses de uma vacina experimental contra a leishmaniose. Descoberta levanta questão ética:
É possível imunizar uma pessoa sem o seu consentimento?
Pesquisadores japoneses criaram mosquitos transgênicos que funcionam como "seringas voadoras". Ao picar suas vítimas, os insetos injetam pequenas doses de uma vacina experimental contra a leishmaniose.
A ideia não é nova. Na década de 80, cientistas já propunham manipulação dos genes para transformar as pragas em aliadas. Agora, um artigo publicado na Insect Molecular Biology demonstrou a viabilidade técnica da estratégia.
A saliva do mosquito é um líquido sofisticado, com muitas substâncias. Algumas delas dificultam a coagulação do sangue. Outras atuam como imunossupressores. Servem para melhorar o desempenho do inseto nas suas refeições. Durante anos, os pesquisadores buscaram a melhor forma de inserir mais um ingrediente na saliva: a vacina.
Por enquanto, só um grupo de camundongos se beneficiou da descoberta. "As picadas induzem uma resposta imunológica, como na vacinação convencional, mas sem dor e sem custo", considera Yoshida. "A exposição contínua aos mosquitos serve como reforço natural da imunidade."
Mas Yoshida sabe que seus mosquitos transgênicos dificilmente serão lançados no ambiente para imunizar comunidades afetadas por doenças. O principal obstáculo é de natureza ética: é possível vacinar uma pessoa sem o seu consentimento?
Além disso, seria muito difícil controlar quem, de fato, foi imunizado. Mas Margareth Capurro, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, aponta outros usos para a técnica. Muitas vacinas precisam ser conservadas em baixas temperaturas, o que dificulta seu uso em regiões isoladas, normalmente as mais afetadas por doenças infecciosas. Ovos de mosquitos não apresentam tal inconveniente. Basta levá-los consigo, lançá-los em um recipiente com água e esperar que as larvas se transformem em um bom arsenal de "seringas voadoras", já prontas com a vacina.
Margareth estuda uma estratégia análoga para combater a malária. Em vez da vacina, ela quer adicionar na saliva do mosquito um coquetel de substâncias capaz de matar o protozoário causador da doença, antes de ele ser injetado durante a picada.
A cientista brasileira já conseguiu identificar uma substância que elimina até 99% dos protozoários.
"Mas basta sobrar 1% para que o mosquito continue infectando as pessoas", aponta Margareth, que agora busca formas de atingir 100% de eficácia.


Fonte: Alexandre Gonçalves - (O Estado de SP, 19/3)


Origem da sífilis é mais antiga que o imaginado

Estudo contraria teoria de que a sífilis surgiu na época das grandes navegações, a data provável seria de 16,5 mil a 5 mil anos atrás.Muitos livros de história do ensino médio apresentam a sífilis como a vingança da América para os colonizadores europeus: Colombo teria regressado para o Velho Mundo carregando nas caravelas a bactéria da nova doença. Mas pesquisadores brasileiros questionam o consenso e apontam uma origem mais antiga: a sífilis teria emergido entre 16,5 mil e 5 mil anos atrás.
O estudo, divulgado na revista Public Library of Science Neglected Tropical Diseases (www.plosntds.org), propõe um método inovador: a conjugação de duas ciências - a paleopatologia e a genética - para desvendar a história das doenças infecciosas.
Basta visitar a sala da bióloga Sabine Eggers, na USP, para compreender o que é a paleopatologia. As bancadas estão cobertas por ossos humanos coletados em um sambaqui catarinense. Carregam informações valiosas sobre o modo de vida dos povos que habitaram a região há três mil anos.
Sabine mostra a tíbia de um indígena que conviveu com a sífilis. Na fase mais avançada da doença, os ossos sofrem danos. O volume da tíbia costuma aumentar - uma consequência do tecido ósseo que tenta se regenerar - e assume a forma curva, comparada muitas vezes à lâmina de um sabre. Apesar do tempo, as marcas continuam ali. "No crânio, é ainda mais evidente", diz Sabine, indicando as lesões características da sífilis.
Os estudos validaram as três hipóteses principais já formuladas para a data de surgimento da sífilis. Ficou claro que apenas uma hipótese gozava de verossimilhança:
A sífilis teria surgido há, no mínimo, cinco mil anos. A hipótese da origem recente da doença no Novo Mundo, próxima à época das grandes navegações, revelou-se improvável, pois exigiria uma taxa de evolução muito alta do microrganismo.

Na realidade, mesmo a revisão de artigos em paleopatologia já oferecia obstáculos à essa hipótese: em 1994, um estudo apontou evidências históricas de um caso francês de sífilis congênita já no século 4º.
"Mas ainda não conseguimos descobrir em qual continente a doença surgiu", afirma Sabine. Ela aponta a necessidade de uniformização dos critérios para diagnóstico de sífilis e outras treponematoses para aumentar a confiabilidade das análises.
Estudar como as doenças surgiram e se espalharam pelo mundo pode trazer informações valiosas sobre a evolução futura das patologias.
O método criado pelos brasileiros também poderá servir para analisar outras doenças como tuberculose e hanseníase.

Fonte: O Estado de SP, 14/3

Impressões bacterianas

Cada indivíduo possui em suas mãos um conjunto único de bactérias, que pode ficar por até duas semanas nas superfícies tocadas por ele. Estudo indica que esses microrganismos podem ajudar na identificação de suspeitos de crimes
Com ajuda da microbiologia, peritos forenses podem em breve ganhar uma nova ferramenta para ajudar a identificar suspeitos de crimes. Um estudo publicado esta semana mostrou que as bactérias que vivem na pele humana são 'personalizadas', ou seja, cada indivíduo possui uma composição única de comunidades desses microrganismos.
Como essas bactérias podem persistir inalteradas nos objetos manuseados ao longo de dias, é possível identificar indivíduos a partir da 'impressão microbiana' exclusiva deixada por ele nesses objetos
Estudos anteriores já haviam mostrado que apenas 13% das bactérias geralmente encontradas na palma das mãos são compartilhadas por duas pessoas. A partir desse dado, pesquisadores da Universidade de Colorado em Boulder (EUA) decidiram investigar se a composição de comunidades bacterianas podia funcionar como uma espécie de 'impressão digital' para cada indivíduo.